Antidepressivos prejudicam o sono em idosos e podem contribuir para demência

  • by admin - ter, 11/08/2016 - 15:27
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Antidepressivos, especialmente inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRSs), podem atrapalhar significativamente a arquitetura do sono em pacientes idosos e contribuir para sinais precoces de neurodegeneração que podem progredir para demência, segundo nova pesquisa.

"Nós levamos em conta outros efeitos colaterais de antidepressivos, incluindo ganho de peso e efeitos colaterais sexuais, mas nos preocupamos pouco com o sono, especialmente quando usamos ISRSs", disse o Dr. Muhammad Tahir, residente em psiquiatria, SUNY Upstate Medical University, Syracuse, Nova York, ao Medscape.

"Os ISRSs aumentam a latência do sono nos idosos e reduzem a duração do sono REM (movimentos rápidos dos olhos) e estão também associados a transtornos comportamentais do sono REM, incluindo pesadelos", adicionou.

"Nossa revisão de literatura sugere que devemos ter cuidado com o uso de ISRSs na população idosa e não subestimar a efetividade da psicoterapia e de outras abordagens holísticas para os idosos", disse o Dr. Tahir.

O estudo foi apresentado na Conferência de 2016 do Institute of Psychiatric Services (IPS): The Mental Health Services.

A revisão da literatura incluiu 10 estudos publicados nos últimos cinco anos. Os estudos incluíram revisões sistemáticas, estudos retrospectivos e estudos prospectivos, e os pacientes precisavam ter pelo menos 50 anos de idade e receber um antidepressivo, principalmente ISRS, para o tratamento de depressão.

As análises revelaram que os ISRSs em particular não apenas mudam a arquitetura do sono em pacientes mais idosos, mas também parecem aumentar o risco de transtornos comportamentais do sono REM.

Os transtornos comportamentais do sono REM são caracterizados por atividade cerebral normal, mas o corpo fica agitado e sem dormir. Isso pode ser um sinal precoce de neurodegeneração, segundo o Dr. Tahir.

Mudanças na arquitetura do sono causadas pela terapia com antidepressivos podem resultar em agitação, notou o Dr. Tahir, que pode levar a novos tratamentos com mais efeitos colaterais.

Infelizmente, existem poucas evidências para apoiar o uso de qualquer outro tratamento além dos ISRSs para depressão nos idosos.

 

Os antidepressivos tricíclicos e os inibidores de monoamino oxidase estão associados a muitos efeitos colaterais, especialmente em idosos, e geralmente não são usados em pacientes mais velhos.

Os benzodiazepínicos, por sua vez, estão associados com risco aumentado de quedas e são inapropriados para uso em idosos.

O Dr. Tahir sugeriu que os psiquiatras triem seus pacientes quanto a qualquer sinal e sintoma de doenças neurodegenerativas e, se forem prescrever um ISRS, perguntem detalhadamente sobre a qualidade do sono nas consultas de acompanhamento.

Dose de ISRS é importante

Comentando os achados para o Medscape, o Dr. Peter Yellowlees, professor de psiquiatria, University of California, Davis, disse que a análise, embora interessante, não inclui informações sobre as doses dos ISRSs usados nos estudos incluídos na revisão.

 

"Nos idosos, essas doses deveriam ser de no máximo metade da dose usual prescrita para pacientes jovens", observou o Dr. Yellowlees.

Quanto à possível associação entre o uso de ISRS e doença neurodegenerativa, o Dr. Yellowlees também observou que os ISRSs não necessariamente são a causa.

"Ao contrário, pode ser que simplesmente nos estágios mais precoces dessas doenças a depressão e a ansiedade sejam mais comuns, e assim os antidepressivos são mais comumente prescritos", observou.

 

De fato, a mesma associação que a descrita neste estudo a respeito dos ISRS foi relatada entre os benzodiazepínicos e doenças neurodegenerativas, apontou o Dr. Yellowlees.

"Ainda não há uma resposta definitiva quanto à relação entre doenças degenerativas e medicações, mas na minha opinião, não existem muitas evidências para sugerir que há ligação causal, embora pareça haver uma associação", sugeriu o Dr. Yellowlees.

"A questão-chave aqui é que a depressão é comum em idosos, podendo ser debilitante, e é muito tratável com medicamentos em baixas doses que são usualmente prescritos em pacientes jovens, junto com intervenções comportamentais".

O Dr. Tahir e o Dr. Yellowlees declararam não possuir conflitos de interesse relevantes.

Conferência de 2016 do Institute of Psychiatric Services (IPS): The Mental Health Services. Resumo 14. Apresentado em 7 de outubro de 2016.

+ Medscape